TEXTO UM




UM


        Enquanto telescópios espaciais vasculham os cada vez mais distantes ecos de nossas origens, homens lançam bombas em casas, escolas e hospitais, cumprindo ordens, cumprindo ordens, cumprindo ordens.
        Enquanto imagens de galáxias as mais distantes pulsantes e vivas chegam até nós, um louco no poder, homens loucos no poder, ódio e ressentimento se espalham na paisagem cada vez menos verde do planeta.
        Enquanto telescópios e galáxias e homens loucos no poder se avolumam nas telas e mentes, uma mulher corre desesperada na esteira, o suor em seu corpo, seu corpo forte, os caminhos abertos, nenhum sorriso, o olhar firme, um mundo dentro dela, girando, planetas, estrelas, e ela quase a voar, vermelha, quase a derreter, a sumir, a mulher em fuga, para sempre, adiante, a correr.
       Enquanto a mulher se lança para o nada em sua volta, e os telescópios nos trazem outros mundos, outras formas, o além no plural, e as guerras e os homens loucos berram e xingam e destroem, um garoto se tranca no quarto, coloca os fones e ouve música alta e forte, não importa a música, a música apenas, a sua música, o som da palavras cantadas, o som das batidas eletrônicas vibrando nos seus ossos, tudo em volta se movendo para além do mundo de agora, das naves no espaço, das estrelas, das bombas, das mentiras do homens loucos, da gritaria e do choro dos órfãos, das viúvas e dos que perderam tudo, e dos que odeiam, e dos que não se veem satisfeitos com as bombas, insultos e tiros.
       Enquanto essa música cala por instantes as vozes, as explosões e o assombro, um homem, uma mulher, qualquer um, chega em casa depois do trabalho, toma um banho e vai pra cama dormir, um dia longo se foi, outros mais virão pela frente, um dia após o outro, para conseguir o dinheiro para pagar a comida, a bebida, o transporte de cada dia, de um mês que sempre acaba antes, do mês que vem sempre desejado, que venha o salário, que o salário como mágica se divida e multiplique, os números rodando em sua cabeça, não há sono, não há paz, vai faltar, não vai dar, não tem dinheiro pra isso, não há dinheiro pra sorrir e viajar, e nem o sono é mais outra coisa, nem o sono é seu, nem a cama é cama sua, é tudo de alguém que não é você, e você enterrado entre dormir e acordar e o dia que certo vai bater na sua janela, um sol imenso, quente, abafado, o sol e o som das máquinas cortando o asfalto, mil caminhos, todos abertos, anos luz daqui, as galáxias, uma explosão de estrelas, e o assombro, as vozes, um dia após o outro. Então você ronca, um rumor profundo em seu peito, o estrondo de todo o universo atravessa paredes, faz tremer a casa e chega nas ruas lá fora. É o sofrimento e a glória, ostentar a ferida e a coragem. Você ressurge de um sono profundo a cada rugido. Todos os dias gritar mesmo morto contra o que te devora.
        Enquanto ruídos arranham gargantas, naves rasgam os céus e bombas explodem crianças e homens loucos no podem cospem suas idiotices, em cada rua lojas fecham, viram lembranças, e irrompe gente com mãos estendidas e histórias e pedidos. Há fome, há miséria, e mãos estendidas. As ruas se enchem de gente andando de um lado para outro, trajando cobertores imundos , o mau cheiro que vem do estômago vazio e do desespero. Não adianta virar os olhos, não há como esconder o calor dos corpos queimando o que não tem. Essas fogueiras vão arder e inflamar o mundo. Há muito combustível, muita energia, o suficiente para devastar tudo pela frente. No centro do mundo, sentada em seu banquinho, uma senhora enorme balança as contas a pagar para os que passam. Que ela não se levante! Que ela continue agitando seus braços! É difícil saber o que virá depois. Mais adiante uma mulher com um bebê no colo avança sobre a mesa de um casal que almoça tranquilo. Ela vende mel, ela coloca o bebê na mesa do casal. Um doido estoura de pular com um copo de cerveja na mão. Ele vai de mesa em mesa pedindo mais álcool. Faz frio, faz calor, noite e dia girando sobre a terra, a terra no céu, um ponto brilhante se extinguindo, uma explosão a mais e mais nada. Uma escola, um hospital, um conjunto habitacional. Cumprindo ordens, cumprindo ordem, cumprindo ordens!
       Enquanto a mulher com bebê no colo cerca o casal tranquilo, no fim da rua um motoboy se espatifa contra um carro. A colisão de duas máquinas. Os sons da sirene da polícia e da ambulância. No chão, pedaços de ferro e um capacete quebrado. Engarrafamento. Manhã perdida, atrasos, mil reclamações. Todos se encontram juntos ao fim na rua bloqueada. Dentro de um carro, um jovem discute com sua mãe. Em outro, um casal se suporta em silêncio. Não vai haver escola, compras no supermercado ou trabalho tão cedo. Essa rua entre nós. Essa rua interrompida. Essa pista que nos trouxe e leva. O lugar de todos nós.
       Enquanto os carros estão plantados imóveis em um engarrafamento, há uma ideia que surge, um vento suave, a brisa desejada: pra que ir mais adiante? Pra que continuar? Os celulares com carga suficiente logo desligam. Esse beijo em tua boca logo sai com o banho. Essa roupa no corpo não é a mais a mesma após cada lavagem.
       Enquanto escrevo, na minha mão esquerda vejo brotarem uns fios de cabelos brancos. Não era assim. Eu conto – são vários, espalhados, fincados na pele, que vai se manchando com o tempo. Agora é uma mecha de fios brancos. Quantas páginas escritas, quantas palavras no papel. O branco dos fios, as páginas, meus olhos vazios. Enquanto eu penso e escrevo essas coisas. Enquanto isso naves voam nas pistas e nos céus. Há uma ideia que gira em cada um de nós. Bombas e homens estúpidos. Tudo em movimento. Um ronco em meu peito. Um buraco na parede. Fome. Mel. Cada vez mais longe. Uma música, por favor. Uma música. Uma música e mais nada.

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