Texto 4
Texto 4
Sejam bem-vindos os novos sábios de agora
imponentes em sua irritação e fúria
contra tudo que é correto, pacato e bom.
Sempre há a divergência, o que nós não queremos.
Isso não nos agrada, isso não é assim.
Por força, nós não aceitamos os outros – eles!!!
E tem de ser tudo resolvido dessa maneira:
de um lado, o que não presta, a tediosa presença da lamúria;
de outro, os melhores, os que decidem, os que negam e se espalham.
Os novos sábios não mais se ocultam ou se arrependem.
Não há medo nem vergonha, apenas o evangelho da desgraça.
Todos os livros são inúteis – prevalece o que eu digo que é.
Saímos das sombras, do ridículo, do desprezo geral
e temos músicas, filmes e todo tipo de aclamação pública.
Ninguém mais vai impedir que o inevitável esgane a esperança.
Agora é a vez dos que eram considerados ignorantes, limitados,
agora é a vez do estorvo, do arbitrário, do sem freios e sensatez
nunca mais vão se calar aqueles que antes não tinham o que dizer.
E vão chegando todos para frente, suados, gritando furiosos,
e empurram, e pisam, e ameaçam, e dão coices e tiros e cusparadas.
E sorriem para o público, e brigam entre si, rindo, o sangue em suas mãos.
É a hora dos novos sábios, dos guias de multidões,
formados a ferro e farra nas mais duras lições, forjaram a si mesmos,
são mestres sem mestres e cheios de razões.
Primeira grande descoberta: tudo está errado, tudo é mentira
Sempre fomos enganados, temos que nos libertar da verdade.
A vontade, a minha vontade é o que vai nos orientar.
Segunda grande descoberta: eu não preciso trabalhar nunca mais!
os melhores devem ser pagos pra nos instruir e julgar.
A remuneração do conspirador é a paga por suas revelações.
Terceira e última descoberta: o ruim é bom, a balbúrdia é lucrativa.
Vamos acusar, vamos difamar e provocar desordem
Isso vai durar o tempo de nossas vidas se arranjarem.
Assim, pequenos homens e mulheres em suas diminutas ocupações e serviços
esses ordinários servidores sem prestígio, linhagem e herança
um dia se encontram e fazem a maior revolução da história:
Por séculos tentou-se uma ordem das coisas, uma norma contra o caos.
Então os extirpados dessa ordem, os intolerantes, os ressentidos, os amargosos
eles se unem no comum de sua insignificância e vociferam:
“Deus! Deus! Família! Pátria!
Pau no cu dos infiéis!
Pau no cu dos comunistas safados!”
A mamadeira de piroca vai reescrever os livros de história.
As urnas eletrônicas vão virar penicos pra generais.
Goiabeiras desfolhadas cantam pra Jesus cristinho!
E não é preciso diploma pra dizer que sabe
mas o melhor é dizer que tem diploma pra poder dizer
mesmo que não haja diploma, daí é muito melhor.
Você pega o nome de uma grande universidade
e coloca assim no papel o curso que você não fez lá
e pronto: gênio, um currículo ímpar, sem esforço algum.
Pois os novos sábios cagam pro conhecimento
o que vale é a fala e o embrutecimento
por isso nem o diploma nem a ciência valem mais nada.
É uma revolução única na história da humanidade:
o real é a mesma coisa que o som e a saliva
e nem as palavras e a escrita têm alguma utilidade.
Não precisa mais haver comprovação e esclarecimento.
Somos os que comem, bebem e cagam
e quem nos abriu os olhos merece nossa mais sincera devoção.
“Deus em primeiro lugar!
Depois no cu de vocês!
No cu dessa caralhada toda!”
Entre o traseiro e a boca circulam os interesses dos novos sábios.
É uma religião, uma não metafísica, uma transmiliciopatia.
Fezes fazes o que queres: Força, farinha, multidão.
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