TEXTO 3

 

Texto 3 

 AS NOSSAS CRIANÇAS CRIANÇAS ESTÃO CORRENDO 


 As nossas crianças estão correndo 
As perninhas mal saindo do chão
 Quase voando, tropeçando em nuvens 
Numa pressa de fugir pra longe. 

 Como correm essas crianças 
O pescoço esticado quase a saltar da cabeça 
Quase a chegar onde querer ir 
O mais longe possível daqui. 

 É certo que vão cansar, que vão cair e se sujar da terra 
Seus corpos vão cair e sangrar e a dor será insuportável. 
Não há alegria, não escape 
As crianças vão ficar imundas e feridas. 

 Mesmo assim elas correm, o choro contido em seus rostos 
Elas correm e abrem seus olhos pra frente 
Lá, longe daqui, alguém, algum lugar, 
 Elas correm querendo ultrapassar a barreira do provável. 

 Pois tão certo quanto a corrida é a queda 
O encalço, o laço, o abraço fatal. 
As crianças são caçadas, abatidas e mortas 
Na grande arena do mundo. 

 Corre criança, aproveita o tempo livre que te resta, 
Brinca, sorri, te manifesta: 
Logo vem o horror e o medo. 
Logo não vai haver onde se esconder e fugir. 

 As nossas crianças continuam correndo 
Sob o olhar da fera que examina a arena do mundo. 
O olhar da fera-desgraça engorda a futura presa. 
O desejo faz a boca mastigar o vazio, salivar. 

 Correm perninhas e vestidinhos, 
Correm bochechas rosadas e meias de algodão. 
A fera já não se aguenta mais e parte pro cerco 
Todos os caminhos já foram trilhados uma vez. 

 Corram, meus filhos, gritem, fujam, não parem! 
Mais à frente, é logo depois, é fora e distante. 
Não virem o rosto pra trás, não olhem a fera. 
A arena é da fera, o animal que ronda e sua. 

 A fera habita os becos sem saída e os atalhos, 
O chão duro que rasga os corpos é sua pele. 
Roupas pelo chão, corpos nus e violentados, 
Mordidas, arranhões, ossos quebrados, a luz se foi. 

 São as nossas crianças, nossos filhos e filhas! 
Fomos nós quem geramos, criamos, alimentamos! 
Elas correm nos procurando, os braços abertos, 
Elas correm em busca de nós. 

As casas estão cada vez mais vazias 
Um silêncio aperta cada coração 
Elas não voltaram da escola, da rua, 
Elas passaram por essa porta que ficou aberta. 

Onde estão as crianças que não correm mais?!!!
Por que não correm mais as crianças? 
Os gritos cessaram, e as brincadeiras, e o sangue. 
O mundo parou de girar.

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