TEXTO 2
Texto 2
Minha vó era doida,
doida
doida de dar dó.
E doidos eram seus filhos e filhas,
E os filhos de seus filhos, doidos até.
Um dia minha vó fez um bolo,
Um bolo enorme, fedido.
E reuniu a filharada toda em volta da mesa.
Um bolo pra multidão.
Nunca havia bolo naquela casa,
Nunca uma festa, nem de despedida.
Em casa de doidos, os doidos são a festa,
A festa de doidos não precisa de bolo.
Então minha vó chegou em seu passinho lento,
Escorregando entre arrotos e saltos
E com todos em volta começou a rir -
Ela ria com a faca de cortar o bolo na mão:
“Pra quem vai o primeiro pedaço?
Quem é meu predileto?
Quem quer comer do bolo que eu fiz?
Quem vai provar da minha comida?”
Minha vó cozinhava porcamente todos os dias.
Ninguém conseguia comer aquela porcaria.
Todos os dias a comida ia pro lixo
Mas todos os dias minha vó cozinhava pra nós.
Agora era diferente. Era um bolo, o bolo mais feio do mundo
O bolo se desmanchava, a base franca, as camadas gordas e gordurentas.
Subia um calor quente daquela maçaroca, uma fumaça de câncer e esgoto.
“ Vamos, vamos, cambada:
Comam, comam o bolo da vovó!
Hoje é um dia diferente,
Hoje é um dia especial!”
E assim foi o medonho, o medonho pavor entre nós. “Como assim – especial?!!!”
O que vai acontecer? O que vamos festejar?” Surpresa em casa de doidos é terrível.
Não saber o que vai vir é um meteoro na sua cabeça. E aquela tarde e noite foram inesquecíveis
Minha vó era doida, doida, doida,
Mas sabia das coisas.
Durante anos ela nos assombrou
Com sua comidas e surpresas.
Somos todos os filhos da doida,
Espalhados pela vizinhança
Ainda comemos a comida porca
Que restou do lixo de todos os dias.
Mas o bolo nunca, nenhuma fatia,
o bolo era demais, o bolo era pra outros,
nunca o bolo pra nós,
nunca,
o bolo não comemos.
Tudo tem um limite, até entre os doidos.
Podemos pensar que o mundo é uma folha de papel boiando no infinito,
Podemos acreditar nas máquinas que nos vigiam e controlam nossa alma
Podemos mesmo sentir a ameaça comunista vermelha e peluda nos cercando
Porém, nunca, nunca vamos provar dessa iguaria
Pois é imundície pra nós, é gosma danosa - horror e horror.
Podemos até pisar nas feridas e imitar gente morrendo,
Abrir as portas da casa e metralhar quem entrar
Podemos ainda nos vestir de gente do bem e rezar
e montar a cavalo e disparar pelas ruas da cidade.
Há quem pense que somos doidos pois nossa vó é doida e nos fez um bolo intragável.
Na verdade, sempre fomos insanos, angustiados, covardes , mesmo antes dela.
Em nosso caso, a gargalhada nos uniu e nos gerou.
A avó veio depois, a canseira de nos bater, vestir e alimentar.
É de nossa natureza recusar o melhor, não provar do bolo.
Para nós, não há nada além disso:
O que para você é uma boa ideia,
Para nós é o pior que pode existir.
Somos os doidos, o incômodo, o embaraço.
Somos os filhos da doida, a loucura de haver gente como nós.
Comentários
Postar um comentário